Repercussões da interiorização do programa de residência médica em Medicina de Família e Comunidade: um estudo de caso / Repercussions of the interiorization of the medical residency program in Family and Community Medicine: a case study

Thiago Alves Hungaro, Raquel Rangel Cesario

Abstract


Considera-se que “a saúde é o maior recurso para o desenvolvimento social, econômico e pessoal”, e visando assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos, o Ministério da Saúde regula a formação em Medicina no Brasil, como estratégia de fortalecimento da Atenção Primária em Saúde, implantando a Medicina de Família e Comunidade (MFC) como base da atenção à saúde. Para tanto, determina profunda alteração curricular na graduação em Medicina, disciplina a formação de especialistas e amplia a oferta de vagas para MFC, estabelecendo-a como pré-requisito para as demais especialidades médicas, naquele momento histórico. Inicialmente, tendo por base a Lei Federal do Programa Mais Médicos, havia-se programado a abertura de PRM-MFC nacionalmente, permitindo a oferta de uma vaga de residência para cada médico formado. Esta programação foi revogada pela Lei Federal que lançou o Programa Médicos do Brasil. Este estudo tem por objetivo apresentar as facilidades, dificuldades e repercussões diretas e indiretas obtidas em um processo de implantação de PRM-MFC. O estudo tem delineamento qualitativo, compreendendo entrevistas de atores sociais (funcionários, gestores, residentes, usuários do SUS), que participaram de maneira absolutamente voluntária, após Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. A realização das entrevistas, análise documental e bibliográfica, permitiu obtenção de resultados importantes. A análise do corpus das entrevistas utilizando a metodologia de análise de conteúdo de Bardin gerou as categoriais iniciais, intermediárias e finais “O processo de implantação do PRM MFC”, onde observou-se o reconhecimento dos atores sociais sobre as ações relativas ao processo; “O reflexo da implantação do PRM MFC”, que permitiu analisar aspectos relativos à quantidade e qualidade dos atendimentos, qualificação médica e as situações relacionadas à aplicabilidade e execução do programa; e por fim, “A mudança do olhar após a implantação do PRM MFC”, que trata sobre a ultrapassagem paradigmática requerida. Verificou-se fortalecimento da APS no município apos a implantação do PRM-MFC, com aumento no acesso aos serviços, melhorias na qualidade do atendimento e na qualificação de toda a equipe, valorização da equipe interprofissional, estabelecimento de novos protocolos e deslocamento da forma de pensar e agir, em direção a uma atuação sistêmica e condizente com os atributos da APS. Ao término deste estudo, foi possível concluir relevantes mudanças e melhorias, que permitirão aos gestores realizar incrementos na qualidade da saúde prestada à população, assim como estimulando a abertura de novos PRM-MFC.


Keywords


desenvolvimento regional, educação médica, políticas públicas, medicina de família e comunidade.

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DOI: https://doi.org/10.34119/bjhrv5n3-090

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