Intoxicação por plantas no Brasil: uma abordagem cienciométrica / Plant intoxication cases in Brazil: a scientometric approach

Danielle Brandão de Melo, Luíza Matos de Macedo, Ida Oliveira de Almeida, Tamires dos Reis Santos Pereira, Thalita Marques da Silva, Marcos Maurício Tosta Leal, Geraldo Aclécio Melo, Lourenço Luís Botelho de Santana

Abstract


 No Brasil é corriqueiro o uso da flora nativa sem respaldo científico de suas propriedades, indicação e dose terapêutica, forma de preparo, outrossim interações medicamentosas. Somado a isso, a notificação dos casos de intoxicação por plantas não é obrigatória, favorecendo a elevação dos casos. Sendo assim, o objetivo deste manuscrito foi discorrer sobre a situação atual do Brasil frente a quadros de intoxicação por plantas comumente utilizadas e suas características, mediante revisão de dados em bases científicas. Foi realizada uma revisão sistemática com dados do Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (SINITOX) e de bases de dados como a Scientific Electronic Library Online, nos idiomas português e inglês. Verificou-se que a ingestão de plantas, incluindo as medicinais em níveis tóxicos, pode causar alterações nos sistemas circulatório, gastrointestinal e nervoso central, podendo ser fatal. Os compostos bioativos mais encontrados em plantas tóxicas são os alcaloides, glicosídeos cardiotônicos e cianogênios, taninos, saponinas, oxalato de cálcio e toxialbuminas. Os dados mais recentes do SINITOX datam de 2016 a 2017, no qual foram identificados 2.028 casos de intoxicações por plantas, 1,17% do total das intoxicações no mesmo período por todas as causas registradas, com 4 óbitos (0,20%), das quais o público infantil de 1 a 9 anos foi o mais afetado com 1.065 casos (52,51%), seguido por adultos 490 casos (24,16%), adolescentes com 121 casos (5,97%) e idosos com 119 casos (5,87%), em sua maioria no meio urbano 1.459 registros (71,94%).  As causas mais frequentes são as acidentais, ignorância e o suicídio, predominantemente do sexo masculino, sendo as regiões Sul, sudeste e centro-oeste as mais afetadas, respectivamente. Logo, evidencia-se a necessidade de uma participação mais expressiva dos Centros de Informação e Assistência Toxicológica para evitar a subnotificação dos índices, visto que a maioria das causas descritas seriam evitadas mediante uma política de educação em saúde sobre os grupos de risco, otimizando ainda os recursos públicos ao reduzir a ocupação de leitos hospitalares, medicamentos, antídotos e demais tecnologias.


Keywords


Síndrome tóxica, Metabólitos secundários, Plantas medicinais, Plantas tóxicas.

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DOI: https://doi.org/10.34117/bjdv7n4-517

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